posts myself blog links
Hishoku no Sora
I'm gonna fly like a bird through the night

It's Showtime
"Miss Lacus's strengths are always going to be needed by everyone. She's strong, beautiful, and kind. I'm just Meer. Nobody really needs me."
Meer Campbell

The Diva
Kawasumi Shana. 25 anos, somando +1 todo dia 07 de Fevereiro. Aquariana. Adoro música, mangás, animes, filmes e livros. Odeio insetos, injeções e filmes de terror, sou criativa e contraditória, possivelmente tenho um parafuso a menos - mas juro que sou legal. Ou não. more?

Encore





Goodbye Stage

 
Hishoku no Sora
Google Chrome | 1920x1080


A cura pela fala
31.8.17 • 8 ComentáriosPermalink


Dia 27 de Agosto foi o Dia do Psicólogo, e eu decidi que estava na hora de falar aqui no blog sobre a profissão que eu escolhi pra mim. Em parte porque agora que não respiro mais a psicologia diariamente (como na faculdade), tenho sentido falta de falar a respeito. Por outro lado, porque eu assumi pra mim a missão de desmistificar a psicologia, visto que muita gente deixa de usufruir dessa ciência por puro desconhecimento e/ou confusão. Assim, esse post é um desabafo, uma 'militância' e também uma homenagem a essa profissão maravilhosa.
Vou começar dizendo que sou uma psicóloga que trabalha na abordagem psicanalítica, então muito da minha experiência na área tem raízes nessa teoria. Isso não desvaloriza nada do que está escrito aqui, mas alguns colegas de profissão podem fazer as coisas de outra maneira ou mesmo pensar diferente :) Então fica aí a observação!

Pra começar, a Psicologia é uma ciência confusa - alguns não acreditam que seja uma ciência de fato, outros se esforçam em pesquisas empíricas para lhe conferir esse status científico. Pra mim, ser psicóloga é estar disposta a cuidar do outro da maneira que ele precisa. Às vezes é terapêutico ficar sentado numa sala por 50 minutos em completo silêncio; às vezes, é terapêutico sentar no chão e fazer rabiscos coloridos; às vezes é pegar um instrumento técnico, fazer perguntas, anotar respostas, calcular scores e elaborar um laudo/diagnóstico.
O ponto é: a gente nunca sabe o que vai entrar pela nossa porta. Cada indivíduo é único, mas todo indivíduo está sujeito à sua vivência em sociedade, a um contexto sócio-histórico-cultural, a um ambiente que o envolve. E disso tudo temos as mais variadas misturas! Quando comecei meu estágio clínico em 2014, minha supervisora me dizia muito que meu papel era "escutar" - o que, mais tarde, descobri ser muito mais do que ouvir as palavras do meu "paciente". Escutar era ouvir o que tinha por trás do silêncio, era ver o que tinha no olhar, nos pequenos trejeitos e nos suspiros. Ser psicóloga me fez aprender a olhar as pessoas e vê-las pelo que são, sem usar de pré-concepções. É ter empatia, sobretudo, mas com a certeza de que você aguenta o tranco. É ser humana, quente e macia, de carne, pele e ossos, mas ser espelho, como disse Freud: estar com o outro, ouvir o outro, falar do outro sem misturar suas próprias questões.
Por essas e outras sou apaixonada pela minha profissão, levo ela muito a sério e tento levá-la da maneira mais competente e humana possível. Isso me faz pensar constantemente nos equívocos que impedem muita gente de buscar ou de usufruir bem de um processo psicoterapêutico, e resolvi aproveitar o momento pra explicar algumas questões que parecem confundir muita gente. Me acompanhem, leitores, me acompanhem...

Psicoterapia é demorado
Como um corte que precisa ser limpo, cuidado, remediado e ainda assim demora a cicatrizar, a terapia não vai resolver seus problemas com algumas sessões. Alguns processos podem levar mais de 10 anos, dependendo do quão profunda for a questão. Isso porque seus problemas não começaram de ontem pra hoje - são sementinhas que a gente e a nossa vida vão germinando em nós, e não adianta arrancar as pétalas ou arrancar o caule: a gente precisa cavar a terra e chegar na raiz do problema. Então, se você começou a terapia e não viu melhora em algumas semanas, não desanime: espere alguns meses. Assim como qualquer outra relação, a psicologia funciona na base da conversa, e pra te ajudar a gente precisa te conhecer, precisa que você nos conte quem você é e como você funciona, pra aí sim podermos te ajudar. Tenha fé na gente, que uma hora chegamos lá :)
Existem algumas abordagens breves, como a TCC ou a Psicoterapia Breve, que geralmente focam em problemas mais pontuais. Insônia, Distúrbios de Ansiedade e Depressão muito limitadores... É tipo quando você descobre um câncer: às vezes você opera, pra tirar o câncer do seu corpo, mas precisa fazer quimioterapia por algum tempo pra garantir que o problema não vai retornar. As abordagens breves são a cirurgia - a psicoterapia é a quimio.

Seu psicólogo não vai resolver os seus problemas
Já ouvi muita gente dizer coisas do tipo: fui no psicólogo, mas ele não me diz nada! Fui no psicólogo, mas ele ficou perguntando o que tinha de errado comigo - como se eu soubesse! Fui no psicólogo, mas ele não me deu nenhuma solução!
Se você foi no psicólogo e passou por essas situações, saiba de uma coisa: ele estava agindo muito certo. As pessoas estão acostumadas a ir ao médico, onde ele faz exames, te cutuca um pouco aqui e ali, te diz o que você tem e te dá um remédio pra sarar. Pronto, resolvido o problema! A questão é que na psicologia, não é assim que funciona.
A psicoterapia visa o empoderamento. Assim, a ideia é ajudar o sujeito a entender a situação que está vivendo, se empoderar dela e tomar as próprias decisões. Vamos colocar assim: é como se você fosse um artista, e a gente fosse a inspiração. Nós não vamos pintar o quadro pra você, mas podemos te ajudar a entender qual a sua ideia, quais cores você gostaria de usar, quais tintas você tem, e o que você pode fazer com o que tem em mãos. Quem precisa misturar as tintas, escolher o tamanho dos pincéis e pintar a tela é você!
Assim, não, nenhum psicólogo vai te dizer o que você tem e como se livrar disso, mas todo bom psicoterapeuta vai sentar contigo e falar dos seus fantasmas pelo tempo que for necessário pra você tomar coragem e exorcizar todos eles. Por esse motivo...

Seu psicólogo não vai dizer o que você quer ouvir
Passar a mão na cabeça, dar conselhos, dizer coisas boas - se é isso que você busca, não busque um psicólogo. Lá no começo eu disse: a gente cuida das pessoas da maneira que elas precisam. Às vezes o teu médico te manda tomar benzetacil, dói pra caramba, mas a sua mãe te leva mesmo assim porque é pro seu bem. O mesmo acontece na psicologia: o seu terapeuta vai sempre te devolver o que você precisa ouvir, por mais duro e feio que seja. Um bom psicólogo não tem medo de falar dos seus monstros, mas ele nunca vai te fazer acreditar que eles são fadinhas. O que nos leva ao próximo item...

Psicoterapia não é fácil
Uma vez, uma colega reclamou numa aula de Teorias Psicanalíticas I que a teoria era muito difícil. Nossa professora respondeu com a seguinte frase: "vocês estão sendo treinados pra lidar com o pior do ser humano. Não é pra ser fácil."
Essa frase me guiou ao longo de toda a minha graduação, e esse é um fato muito importante sobre a psicoterapia: não é pra ser fácil. Como eu disse no começo, a psicoterapia é tratar das feridas, e pra isso a gente precisa lavar com sabão, passar álcool, passar remédio, enfaixar e trocar o curativo constantemente. E depois que a ferida sarar, ela vira uma cicatriz - ela nunca vai sumir definitivamente. Pra exorcizar os monstros, a gente precisa procurar eles em todos os lugares - embaixo da cama, dentro do armário, atrás da porta - e enfrentar todos eles de frente. É preciso muita força pra enfrentar os próprios monstros, pra passar álcool na ferida, e às vezes a gente não aguenta.
O seu psicólogo é a pessoa que vai topar olhar embaixo da sua cama com você, abrir o seu armário e caçar os monstros. É aquele amigo que vai segurar a sua mão quanto você estiver levando pontos na ferida - por mais feio e ensanguentado e agoniante que seja de ver. A gente vai estar com você nesse momento difícil, mas é você quem decide o que fazer com seus monstros e feridas. É você quem precisa dar o passo pra sair desse lugar onde está. E é por isso que...

Ninguém é "paciente" no processo psicoterapêutico
No meu primeiro ano, durante um congresso, participei de uma conversa acalorada sobre o uso da palavra "paciente" em psicoterapia, independente de qual a abordagem utilizada. Isso, porque paciente dá a ideia de alguém passivo, conformado, que espera algo acontecer - o total oposto do sujeito em terapia. No processo psicoterapêutico, o sujeito é ativo, é alguém que busca empoderar-se da própria existência. É por isso que seu terapeuta - se for um bom psicólogo - nunca te diz o que fazer. É você quem tem que fazer e acontecer, é você quem precisa ser a personagem principal da sua própria vida. A gente só te dá o apoio necessário pra chegar nesse ponto. :) E é por isso que...

A psicoterapia é um processo
Por fim, eu preciso falar sobre como a terapia é um processo, que se desenvolve e vai acontecendo de maneira dinâmica e amorfa. Não tem necessariamente começo, meio e fim. Tem indas e vindas, tem progressos e retrocessos, quem recaídas e melhoras. Não é incomum que uma pessoa faça psicoterapia por anos, fique bem e 10 anos depois precise procurar a psicologia por outros motivos. Cada processo é diferente, único, e está sujeito a relação que você cria com seu terapeuta - então se o seu psicólogo é totalmente diferente do psicólogo do seu amigo, fique calmo que tá tudo bem. É por isso que um terapeuta pode ser mais quieto, enquanto outro pode te fazer mais perguntas; um pode ser mais breve e objetivo e o outro mais minucioso e mais abstrato. Depende do estilo, da abordagem, da bagagem teórica e da pessoa que ele é, e isso tudo contribui para o processo de alguma maneira. Pra dar certo, você precisa se permitir viver esse processo, por mais longo e doloroso que ele possa ser. Lembrem-se: antes da ferida cicatrizar, ela dói, dói bastante, e tratar dela nunca é indolor. Mas é aquela coisa: ou você passa álcool e cuida da ferida, ou deixa ela infecionar e perde o braço.
Melhor passar álcool, né?


Enfim. Fica aqui essa pequena homenagem, militância, desabafo, qualquer coisa que seja. Fazia tempo que eu queria falar sobre psicologia nesse blog, mas nunca soube como. Talvez a inspiração tenha vindo do meu primeiro Dia do Psicólogo como psicóloga, graduada e registrada. Espero que esse post tenha ajudado a esclarecer algumas coisas, que eu acho importantes, porque muito dos problemas que as pessoas encontram em buscar ou fazer terapia tem a ver com o desconhecimento. Acho que, enquanto profissional, faz parte também esclarecer as pessoas acerca da minha profissão, e acho que a psicologia seria muito mais amada e utilizada se todo psicólogo tivesse essa missão pessoal. Psicologia é uma ciência, é uma arte, mas sobretudo, como disse Freud, é uma cura pela fala. Não tenha medo de falar sobre si mesmo, não importa o quão bobo ou bizarro possa soar pra você.
Fala, 'paciente'. Fala que a gente te escuta!

Marcadores: ,




«older newer»