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E mais um ciclo se encerra.

Pouco tempo depois de eu ter perdido meu pai, eu conversei muito com uma amiga que tinha perdido a avó um ano antes, e ela me disse: "esse próximo ano vai ser difícil, amiga".
Sendo bem sincera, na época eu achei um exagero, que o meu luto ia influenciar meu ano por inteiro. Mas nossa, como eu estava enganada - minha amiga estava certíssima, e 2018 foi um ano dificílimo.
Vi meu povo eleger um cara que destila ódio pela boca, e vi pessoas mostrando seus piores lados em função das discussões políticas. Aprendi, mais uma vez, enquanto ouvia meus pacientes, que o ser humano é o ser mais terrível que anda nesta terra. Por fim, talvez o mais difícil, percebi que nem todas as pessoas que eu mantinha por perto deveriam estar ali; que muitas das pessoas que eu mais considerava eram as que mais me faziam mal e que, sendo a vida tão efêmera e com final determinado, não valia à pena me doar tanto aos outros.
Quando eu mais precisei, eu me vi muito sozinha - seja porque grande parte das pessoas à minha volta não me via de verdade, e colocava em mim suas próprias ideias do que era luto, perda, força e superação, seja porque muitos demandavam meu apoio sem se atentar ao fato de que eu mesma estava sem ter onde me apoiar.
Foram essas e outras coisas que me fizeram pensar no que eu aprendi neste ano. 2018 foi uma merda, foi uma merda pra todo mundo, mas foram 365 dias vividos - e agora é a hora de decidir o que eu levo deles comigo. E foi isso que me fez pensar em gratidão.
Perder uma pessoa tão importante na minha vida me fez repensar em muitas coisas, e aprender a ser grata por elas. Eu sou muito grata de ter voltado a conversar com meu pai meses antes dele morrer. Sou muito grata de ter me despedido dele, de ter ficado ao lado dele até o último minuto e não ter deixado nada passar. E com isso eu aprendi a agradecer outras coisas.
De pronto, eu sou grata por estar viva. Por ter enfrentado e derrotado meus piores monstros e pesadelos, e ter sobrevivido a todos eles. Sou grata por todas as lições que eu aprendi quando quebrei a cara esse ano - por ter aprendido a me respeitar mais, a me cuidar mais e a escolher melhor quem eu quero do meu lado. Sou especialmente grata por ter finalmente começado a entender que eu não preciso me sentir mal em dizer não à todas as pessoas que não me respeitam, e a todos os afetos "vampiros" (como brilhantemente nomeou a minha terapeuta), que tentam me amar enquanto sugam tudo de mim. Sou grata, em suma, por ter aprendido a respeitar meus limites e abraçar toda a potencialidade que eles me permitem.
Em segundo lugar, sou grata a todas as pessoas que ficaram. Esse ano foi complicadíssimo pra mim em função da perda do meu pai, mas foi também um ano de muitas mudanças - eu comecei a trabalhar muito, nós reformamos toda a minha casa sem sair dela, a vida aconteceu em vários níveis e quando eu tinha algum tempo sobrando, eu estava tão cansada de viver que não queria sair da minha cama. Foi uma verdadeira odisseia contornar isso tudo, e eu sou muito grata aos amigos que ficaram apesar disso, a todos que se deram ao trabalho de contornar meus horários loucos e de passar tempo comigo. Sou grata, também, a todo mundo que relevou meus sumiços aqui na blogosfera, que continuou frequentando o blog e meu projeto, que não exigiu muito de mim - parece pouco, mas vocês não imaginam o quão importante foi saber que, mesmo se eu tirar um tempinho pra mim mesma, as pessoas não esquecem de mim por aqui.
Sou grata, ainda, por todas as coisas que deram errado esse ano, porque eu aprendi com elas. Aprendi porque discutir política é importante, e porquê os ideais de algumas pessoas simplesmente não podem ser aceitos, se desrespeitam a integridade de outros seres humanos. Aprendi que, às vezes, ouvir alguém falar do seu pior lado por uma hora é essencial, mesmo que você não tenha nada a dizer sobre isso. Aprendi quais brigas eu posso comprar, e de quais eu devo me manter longe. Aprendi que nem todos são amigos, e que família não é feita só de sangue, ou de nome. Sofri muito, errei muito, fui atacada de muitos lados - como de costume nesses últimos 25 anos de existência - e cresci apesar de tudo isso. Sou muito, muito grata por ter aprendido que todo mundo sofre, e que depende de nós o que fazer com esse sofrimento. Por fim, sou grata pior ter decido aprender com isso, e ser uma versão melhor de mim mesma - uma versão que não tolera que meus limites sejam transpassados; uma versão que cuida mais de si mesma; uma versão que tem um pouco mais de amor-próprio; uma versão que exige um pouco menos; uma versão melhor do que a do início desse ano.
Obrigada, 2018. Pelas lições, pelas cicatrizes, pela força, pelo amadurecimento. Obrigada por ter proporcionado mais mudanças! Que 2019 possa ser mais leve, mas que possa acima de tudo trazer mais ensinamentos, mais amadurecimentos, mais vida pra ser vivida.
Pode vir sem medo, 2019. Porque essa versão de mim não tem mais medo de viver - faça chuva ou faça sol, a vida acontece, e a gente segue crescendo com ela.

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Written by Shana | 31 de dezembro de 2018 | 4 Comentários | link to this post



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