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Together | Das miudezas

Desde cedo sou muito observadora. Sempre me atento aos detalhes, mesmo os mais miúdos. As pequenas coisas da vida, pra mim, não são as bucólicas e idealizadas, as saudosistas e da natureza. São os detalhes, pequenos ou não, que compõe nossa história. As pequenas felicidades são aquelas momentâneas, ou baratas, ou mesmo as que não se pode comprar. Guardo comigo as miudezas do dia-a-dia, de coisas que já passaram ou que permanecem presentes; lembranças pequenas, de grande valor ou não. Dos bilhetes e cartões recebidos às roupas velhas que herdei de alguém, dos álbuns de fotos às gravatas velhas do meu pai: a vida se compõe das suas pequenas coisas, num emaranhado de fios grossos e finos que, ao se entrelaçarem, criam algo robusto, confortável, familiar. São muitos os laços, os 'nós' - cada relação, cada momento, cada pequena conquista diária -, e o que quer que estejamos tecendo, segue aumentando até o fim dos nossos dias.
Hoje, apesar de não ser essa poeta anti-capitalismo, urbanismo e tecnologia, quero dividir com vocês as pequenas coisas que teceram os meus caminhos até esse momento - que talvez não sejam tão bonitas e naturais como endeusam os poetas, mas que são bonitas na sua simplicidade. Hoje eu vou falar das lembranças, e também das coisinhas rotineiras que me compõem de alguma forma.


Ao pensar em lembranças, a primeira coisa na qual penso é a minha maleta. Nela há uma mistura imensa de pequenos objetos que guardei por algum motivo, de bilhetes e rabiscos das colegas de escola (desde a infância!) e de pequenas memórias que eu mantive comigo. Por vezes eu me esqueço de quem ganhei uma coisa ou outra, mas sempre me recordo de algo: das canetas de gel que eram febre na minha infância, das cartas de amigas que já não vejo ou perdi contato, dos momentos de alguma das relações que já se passaram. Coisas pequenas, mas que me dão a dimensão da quantidade de coisas que eu vivi nesses anos.


Guardo também coisas que me remetem a algum momento - pequenos objetos, que nem sempre têm muita utilidade, papéis, guardanapos, coisas que me remetam à algo ou alguém e que me levam instantaneamente ao meu passado quando olho. A própria maleta foi presente de uma amizade do passado, que foi boa lá atrás, e que de uma forma ou de outra me ensinou algumas coisas (como todas as outras relações que eu vivi em algum momento).


Ainda nos pequenos 'tokens' que guardo, tenho esses dois broches, que estão bem velhinhos, mas carregam muita história. Os dois foram presentes do meu pai para a minha mãe quando eles ainda namoravam - eu sequer estava nos planos, então eles têm pelo menos 30 anos! Me lembra, de uma certa forma, de todas as histórias que eles me contaram ao longo do tempo em que estiveram juntos, e do quanto ainda que abatidas, velhas e desbotadas, algumas relações perduram, firmes e fortes.


Outra herança são os cartões postais que minha mãe colecionava. Alguns ela ganhou do meu pai, outros dos padrinhos dela, entre tantas outras pessoas. Lembro de muitos momentos em que ela pegava suas caixas e latas antigas, com várias memórias guardadas, e mostrava pra mim os cartões, contando a história por trás de cada um. Eventualmente, ela os entregou pra mim, pra que eu continuasse guardando esses pedacinhos de história em papel.


Por fim, entre as minhas lembrancinhas materiais, guardo os ingressos, comprovantes e convites de eventos que fui. Não sou de guardar nota fiscal e canhotinho de cinema, mas é sempre uma delícia ver um ingresso que eu não lembrava que tinha e mergulhar de cabeça nas lembranças. Acho divertido principalmente a dimensão que essas recordações me dão de como os tempos mudaram ao longo desses anos (embora, na foto, acho que a única mudança escancarada é o aumento do valor do Anime Friends, risos nervosos)


Mas são também as pequenas coisas do dia-a-dia que fazem a minha história - os pequenos gostos e prazeres que constituem a minha pessoa, a minha personalidade. É me perceber naquilo que eu gosto, naquilo que eu acredito, que me ajuda a reconhecer a mim mesma. É por esse motivo que resolvi falar não só das memórias, mas também dos momentos: os meus pequenos prazeres diários, que me atravessam e me constituem enquanto "eu mesma".
Acima, uma foto do céu por uma das janelas da minha casa; uma constante admiração minha desde pequena. O céu que dita tanto o meu humor, e que me faz pensar na beleza das pequenas coisas (e que me fez também tropeçar trocentas vezes por estar muito ocupada admirando sua imensidão. Não é tão poético quanto eu fiz soar nessa frase).


A felicidade de me aquecer no inverno. Quem não gosta de se sentir quentinho num dia frio? A minha estação favorita é também uma das poucas épocas do ano na qual eu consigo me manter numa temperatura agradável, e não preciso me preocupar com crises de enxaqueca, quedas de pressão e mal-estar. Um par de meias quentinhas, uma manta, um suéter de lã: o que quer que seja que me mantenha quente, protegida e me faça sentir bem, faz o meu dia mais feliz.


Chá em qualquer clima, em qualquer momento do dia, por qualquer razão - ou mesmo sem razão alguma! Embora eu adoro mesmo é beber um chá bem quentinho no frio, e sentir o líquido esquentando meu corpo, meu peito, meu ser. Um dos meus hobbies é experimentar chás diferentes, independente dos benefícios e funções. Embora admito que sempre tomo um chá de gengibre pra garganta, e um de hortelã pro estômago, e que me alivia mesmo, hahaha! Chás e canecas são pequenas felicidades minhas, e mesmo em dias quentes dou um jeito de beber gelado mesmo ♥


Mas prazeroso, mesmo, é quando uma das coisas essenciais da vida lhe é gostosa. Eu gosto de comer coisas gostosas, e por tabela de fazê-las também. Gosto quando o que eu fiz fica bonito, fica delicioso, quando eu tenho vontade de fazer de novo. Gosto de testar e inventar receitas, gosto de misturar as coisas, e é algo tão natural pra mim que me surpreende quando alguém me diz que não consegue cozinhar. Gosto de experimentar temperos diferentes, comidas regionais e típicas, fast-food e refeição caseira, doces e salgados. Comer me faz feliz, entender minha comida me faz feliz, e nos últimos meses cuidar da minha alimentação virou uma dupla necessidade, mas eu me sinto bem com isso também (embora não com os motivos, mas né, lidemos).


E numa mistura de memórias e pequenos prazeres atuais, eu preciso mencionar minha relação com o colorir, o desenhar, o fazer à mão. O que começou com meus livros de pintar na infância, que caminhou para os desenhos e se transmutou em webdesign; a minha capacidade criativa de expressar alguma coisa pelo desenho sempre me acompanhou em diversas formas. É um prazer constante na minha vida, e embora eu tenha mudado as ferramentas, eu sempre volto pra uma e outra. Sempre pinto alguma coisa, rabisco alguma coisa, crio alguma coisa no photoshop. Essa é a minha expressão artística, e ela me acompanha desde que eu me entendo por gente!


Por fim, mas não menos importante, um prazer não tão pequeno, não tão miúdo assim: a escrita. Eu gosto de escrever, me orgulho quando leio meus escritos e percebo que expressei tudo o que queria nas linhas. Gosto de poesia, de prosa, de resenhar e de tagarelar. Já fiz escrita poética, científica e despretensiosa, e acho que uma das coisas que mais me manteve sã e saudável nessa quarentena foi justamente escrever várias coisas no blog. São 16 anos alimentando esse passatempo, que traduz em palavras escritas grande parte da minha vida, e segue sendo uma das coisas mais minhas, que me fazem o que eu sou agora ♥


Preciso falar que eu tomei um monte de liberdades com essa blogagem, que eu mesma nem sei dizer o quanto eu fiquei e o quanto saí do tema proposto. Também me dei umas liberdades poéticas e não sei o quanto desse texto fez sentido, o quanto desse post valeu a leitura, mas foi um prazer e um desafio de escrever. Acho que a gente perde muito tempo se preocupando com uma certa simplicidade endeusada, ostentada, de uma natureza que talvez nem exista mais, em detrimento das coisas do nosso dia-a-dia que podem ser igualmente bonitas e preciosas se a gente permitir. Não são flores nem borboletas, mas são momentos do meu dia, pedaços da minha história e tantos outros pequenos detalhes que fazem a vida ser o que ela é. E às vezes não é uma obra de arte, ou uma poesia rimada, mas é verdadeira - isso me basta. Nesses detalhes eu me vejo enquanto pessoa, e essa realidade é muito mais reconfortante do que qualquer outra coisa poderia ser.
Esse post faz parte da blogagem coletiva de Maio do Together - um projeto para unir a blogosfera! -, cujo tema era "pensar sobre as pequenas (importantes) coisas".

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Written by Shana | 22 de maio de 2020 | 5 Comentários | link to this post



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