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Eu e o meu transtorno de sono
Eu obviamente estou escrevendo esse texto em um dia e momento específicos, mas ele não precisa de data nem de contexto. Por quê? Porque eu convivo diariamente com insônia há 15 anos, e eu não preciso de absolutamente nenhum gatilho, estopim, situação ou questão pra ficar insone. Eu só fico, e é isso.
Lembro como se fosse ontem da minha primeira crise. Eu tinha 12 anos, estava assistindo anime na TV numa madrugada de domingo pra segunda. Meu anime ia terminar entre 00h30 e 01h00, e minha mãe tinha me feito jurar de pés juntos que eu ia dormir assim que terminasse, porque eu tinha escola no dia seguinte. Era uma rotina comum para a minha versão pré-adolescente - meus pais sempre estipulavam horários, e eu seguia. Acabado meu episódio eu desliguei a TV, liguei meu abajur, me enfiei debaixo das cobertas e fechei os olhos.
E não dormi.
Era uma constante sensação de que algo não estava certo: meu travesseiro estava duro, meu cobertor muito pesado, sem cobertor me dava frio, o outro travesseiro não era duro o suficiente, não conseguia sem travesseiro. Conforme o tempo passava, eu me pegava pensando em como eu tinha aula de manhã e só queria dormir logo, porque eu estava cansada e não queria ficar com sono de dia.
Então, minha mãe parou do lado da minha cama pra dizer: acorda filha, é hora de se arrumar pra escola. E eu levantei os olhos pra ela e disse: mãe, eu não consegui dormir ainda.
Eu passei aproximadamente 5 horas rolando na cama sem conseguir dormir, por nenhum motivo aparente. E no minuto que minha mãe disse que eu podia faltar na escola e me mandou dormir um pouco, eu deitei a cabeça no travesseiro e apaguei.
Era a primeira de infinitas crises de insônia, que eu só fui entender enquanto um transtorno de sono que eu tinha quando cheguei nos meus 25 anos de idade.
Nesses mais de 10 anos em que eu não entendia bem meu problema, foram muitas as hipóteses. Era o "ela fica tempo demais nesse computador!" da tia intrometida; era o "você não dorme porque você não quer" dos meus pais, "toma esse chá que você vai dormir por dois dias!" das avós e vizinhas, ou os "você não consegue dormir porque está gorda" dos médicos, e até mesmo o "você podia usar esse tempo livre pra ler alguns artigos, escrever uns resumos, menina!" da minha orientadora workaholic na faculdade.
Porque sim, mesmo com uma rotina regrada e com uma lista de compromissos consideráveis, com aulas ou atendimentos às 8h da manhã, eu continuava sem dormir.


É maçante ter que explicar isso pras pessoas. Que remédios calmantes não funcionam comigo. Que eu posso ter dormido por 3h na noite anterior e, ainda assim, ficar sem sono e virar mais uma noite na sequência. Que não pode ter nenhuma luz na penumbra e nenhum ruído onde eu estiver dormindo. Que eu não posso ouvir um desabafo, assistir só mais um episódio ou fazer um favor depois do horário que eu planejei (tentar) encerrar o meu dia e desligar o meu cérebro. Que eu estou cansada, frustrada, ansiosa e que eu só queria poder deitar a cabeça no travesseiro e dormir igual todas as outras pessoas normais fazem.
Já tomei remédios. Já tomei chás. Já fiz a rotina do sono. Já fiz exercícios físicos diários pra gastar energias. Já tentei passar tempo acordada pra só dormir à noite. Já fiquei 52h seguidas sem conseguir dormir.
Um dos pequenos alívios da minha rotina, hoje, é que o relaxante muscular que meu médico recomendou pra dores nas minhas costas me deixa sonolenta. Eu posso tomar e, 3 ou 4 horas depois, deitar e dormir. Consigo dormir às 22h, às vezes até às 21h, dependendo do cansaço!
E aí eu acordo às 2h50 da manhã, sem sono nenhum, e só consigo dormir de novo às 4h37 do dia seguinte.
Minha insônia já me fez perder a hora, já me trouxe inúmeras crises de enxaqueca, já me deu crises de ansiedade e ataques de pânico no meio da madrugada. Eu só queria dormir, é só isso!
E ainda preciso ouvir piadinhas de mal-gosto dos colegas de trabalho, dos professores, das chefes, pelo fato de eu marcar meus compromissos todos à tarde. Pelo menos assim eu consigo garantir ao menos 3 ou 4 horas de sono antes de qualquer coisa importante que eu precise fazer.
Eu tenho insônia. Insônia é um distúrbio do sono, que pode ter causas emocionais ou não, que pode ter causas físicas ou não. O ponto é que nenhuma das minhas psicoterapeutas conseguiu descobrir o que me deixa insone, e nenhum exame acusa nada de mais. A única coisa que eu ainda não fiz foi passar uma noite em claro em um laboratório de sono - num ambiente onde eu tenho certeza absoluta que não vou conseguir dormir de qualquer forma pelo desconforto. Sem considerar a falta de tempo e grana pra me dar a esse luxo de investigar meu sono em detalhes. Ou a falta dele, pra ser mais exata. E como se não bastasse: tenho sono leve, e sono interrompido. Se eu consigo dormir cedo, eu acordo de 4 a 5 vezes na mesma noite. A primeira coisa que eu faço ao acordar é olhar o relógio, e contar quantas horas eu dormi. É a única conta rápida que o meu cérebro de humanas consegue fazer.
Chega uma hora que a gente só aceita. Eu tenho insônia há 15 anos, eu já tentei todas as terapias alternativas e medicamentosas possíveis, nenhum profissional consegue entender a causa. Eu tenho intolerância a cafeína, eu sou uma adulta responsável, e eu tive que aprender a funcionar com menos de 5 horas de sono normalmente.
Não tire sarro da sua amiguinha que marca todos os compromissos à tarde. Você nunca sabe os pesadelos que ela tem acordada enquanto o resto da cidade dorme.

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Written by Shana | 26 de junho de 2020 | 6 Comentários | link to this post



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