posts profile blog links

The Beginning

"People should learn that you cannot dwell in your past. One who dwells in the past hurts not only himself, but also the people around them."


Black Rabbit

Kawasumi Shana. 25 anos, somando +1 todo dia 07 de Fevereiro. Aquariana. Adoro música, mangás, animes, filmes e livros. Odeio insetos, injeções e filmes de terror, sou criativa e contraditória, possivelmente tenho um parafuso a menos - mas juro que sou legal. Ou não. more?

Follow me


Follow



Farewell

 
Hishoku no Sora
Google Chrome | 1920x1080


Sunmi, 'Heroine' e empoderamento feminino

Saudações, leitoras e leitores deste blog! Como têm passado? Espero que a semana tenha sido tranquila pra vocês.
Tem um bom tempo que eu não falo sobre música por aqui - isto é, desconsiderando todos os memes e playlists que rolaram neste blog nos últimos meses. A última vez que fiz alguma resenha ou análise foi e, 2016, quando tentei desvendar o clipe de November Rain, do Guns n' Roses. Como estou numa vibe bem feminina (e feminista também) da minha vida nesse último ano, resolvi falar um pouco sobre a música de uma mulher - e embora eu vá falar de um track só, acho que a canção traz uma reflexão muito importante e pertinente pra nós.
Já faz algum tempo que a Sunmi, uma solista do Kpop (ex-Wonder Girls) lançou o single Heroine. A princípio eu não gostei - acho que a Sunmi tem um estilo meio esquisito, musicalmente e visualmente, mas a vi esbanjar talento nos últimos 2 comebacks do Wonder Girls dos quais ela participou - o que me convenceu que, por mais esquisita que seja, ela tem muito talento.
Apesar de não ter gostado da música, achei o MV maravilhoso, com muitas cores, muitas estampas e tal, e achei muito interessante ele trazer uma protagonista forte e explorar a sensualidade feminina - coisas que a gente sabe que não se vê muito na Coréia do Sul, tampouco no K-Pop.
Porque eu resolvi falar dessa música? Bem, porque eu li a letra dela.


Direto ao ponto: até hoje eu me arrepio toda quando ouço o refrão. A música fala, claramente, de um relacionamento abusivo - onde o cara é um verdadeiro filho da puta canalha, mas o seu comportamento é socialmente justificado, e embora a garota termine triste, "o show deve continuar". Isso fica muito claro no refrão, leiam comigo:
Faça o que você quiser
Mesmo se você for malvado
E me deixar triste
Você precisa ser você mesmo
Mesmo que eu não me sinta bem
E seja um final triste
O show deve continuar
Nesse trecho, dá pra perceber o que eu falo com "socialmente justificado". É muito comum vermos relacionamentos onde o homem pode sair com os amigos, chegar tarde em casa, não ajudar nas tarefas (ou na criação dos filhos) ou mesmo se envolver com outras mulheres, mesmo estando em um relacionamento sério - namoro, casamento ou qualquer outro relacionamento monogâmico. O mesmo não é permitido para as mulheres - vai uma dona de casa deixar o filho com o marido no domingo pra ir ver um filme com as amigas? Blasfêmia -, mas aqui eu queria chamar atenção ao acordo.
Eu explico: quando uma mulher e um homem estão em um relacionamento e ele faz algo desrespeitoso, que desagrade sua companheira ou a deixe chateada de alguma maneira, é muito comum alguém dizer "Ah, mas ele é homem", o que é um eufemismo para: como ele é homem, ele pode te maltratar/desrespeitar/magoar, porque faz parte de ser homem. Isso, pra mim,, aparece quando, na letra, diz-se: mesmo se você for malvado/E me deixar triste/Você precisa ser você mesmo. Pouco importa se a parceira está incomodada com determinada atitude, o homem precisa sempre realizar os seus desejos.
É aqui que entra uma frase chave na música e no clipe: the show must go on (o show deve continuar): ninguém espera que uma mulher fique de cara feia ou termine um relacionamento se um homem faz qualquer uma dessas coisas (ou coisas piores). Socialmente, não importa - ele é homem, ele pode fazer o que quiser. O papel da mulher é sorrir e continuarmos linda ao lado dele (mesmo que esse seja um final triste pra ela).
Continuemos com nossa reflexão:
Você sempre briga até o fim amargo
E tenta acobertar tudo
Por que você me deu asas
E quis que eu caísse?
Esse é um trecho interessante. Veja se essa cena se encaixa em qualquer história "romântica" que você conheça: o cara faz alguma merda, a garota fica chateada/decepcionada e termina com ele. Depois, ele vai até ela com um buquê de rosas, um cachorrinho, um anel de diamantes, qualquer coisa, e diz que a ama, que quer estar ao lado dela, que foi um idiota. Ela chora, eles se beijam e vivem "felizes para sempre" - e, geralmente, é nesse momento que o filme acaba.
Provavelmente, vocês já viram essa cena em muitos lugares - novelas, filmes, livros, vida real. Não basta todo tipo de comportamento desagradável ou abusivo ser perdoado pela sociedade, a "heroína" deve sempre aceitar seu homem de volta e lhe dar mais uma chance. Qualquer erro pode ser remediado e acobertado, e se uma mulher se recusa a aceitar isso, os dedos são apontados pra ela (independente do quão filho da puta cachorro o homem seja).
A segunda parte, sobre "dar asas" e querer que a personagem "caísse", mas faz pensar em como as mulheres são muito ostentadas, na nossa cultura, mas nunca tratadas com igualdade/equidade. Elas são pequenos troféus, devem ser cuidadas e amadas 'como uma flor', mas não precisam de direitos, não devem ser mais do que um belo acessório. Todavia, embora o trecho possa ser interpretado dessa maneira, acho que aqui eu já estou transcendendo um pouco o contexto dos versos e da letra, então isso pode ser só uma brisa mesmo...
Você me diz "boa menina"
E me faz voltar atrás com minhas lágrimas
Sim, você deve saber que
Você me droga*
*Em inglês, "You may know that you snow me". Aparentemente, 'snow' é uma gíria pra cocaína, e considerando que o título da música é "Heroine", que pode ser tanto uma heroína protagonista quanto um tipo de droga, traduzi como "você me droga" no sentido de que ele tira a sanidade da personagem.

Prossigamos!
Aqui, a letra fala de algo que acontece muito - quando um cara te diz que você é uma boa menina, boa moça, tão boa pra ele, porque você está se chateando com isso? Temos algo tão lindo juntos, por que terminar? Nós podemos ser tanta coisa, eu vou melhorar, eu te amo tanto... Aqui, o que fica explicitado, é a chantagem emocional, típica de relacionamentos abusivos. Chamar a personagem de boa menina é remeter a um certo comportamento - a boa menina é comportada, passiva, quieta, recatada e submissa ao homem e a sociedade patriarcal. A boa menina é maternal, doce, delicada, adora cozinhar e costurar, "já pode casar" - e ser mãe, e ficar à mercê do marido. A boa menina também faz o que o parceiro espera - e isso inclui fazer vista grossa a comportamentos violentos, desrespeito e traições, coisa "de homem". Nesse aspecto, pra ser uma boa menina não se pode desagradar o parceiro, e é por isso que ela precisa "voltar atrás com as lágrimas".
Os dois últimos versos têm uma interpretação mais... enevoada, por assim dizer. É o segundo momento na letra em que a personagem sugere que o 'herói' a deixa enebriada, como se ela não pudesse pensar com clareza quando está com ele. Embora eu tenha traduzido como algo relacionado a drogas, acho que essa chantagem emocional da qual falei anteriormente tem muito esse sentido de confundir a vítima dentro do relacionamento abusivo - o amor vira, literalmente, uma droga, que te deixa confuso o suficiente pra relevar coisas que não estariam bem se você olhasse pra elas com um olhar mais crítico.
Por fim, o último trecho que eu quero discutir nesse post:
Em um drama só para nós
O verdadeiro herói foi você, baby
Como sempre, do jeito que você faz
Como um herói esplêndido
Aqui, embora pareça que a personagem está enaltecendo o cara, ela está sendo irônica - ele é um "herói esplêndido", como manda a cultura da sociedade machista e patriarcal. Todos os comportamentos duvidosos do homem nesse relacionamento (descrito na música) não estão fora do que é esperado de um homem - ele deve sempre estar satisfeito, perseguir seus sonhos, mesmo que sua companheira esteja triste o final seja infeliz. "Como sempre, do jeito que você faz", ele foi "ele mesmo" e foi um "verdadeiro herói". Quantas vezes vimos uma garota ser estuprada pelo namorado em um mangá shoujo, e mesmo assim eles ficam 'felizes para sempre'? Quantas vezes o 'herói' de um filme teve algum comportamento extremamente duvidoso, mas foi perdoado e reconquistou sua heroína? Quantas vezes um homem é perdoado por magoar uma mulher, ser maldoso com ela, por ser egoísta, por ser violento? O homem sempre é perdoado, porque é isso que se espera dele. Ele deve fazer o que lhe convém, realizar seus desejos e a mulher está ali pra acolhê-lo e aceitá-lo como ele é, amá-lo incondicionalmente independente se isso faz bem a ela ou não, independente se ela não está "se sentindo bem" e se ela vai "ficar triste".
Depois desse trecho, a música repete o refrão e a frase trágica: o show deve continuar. No fim, independente do quão triste, ferida e insatisfeita a heróina da história esteja, o papel dela já foi definido há muito tempo...
Onde entra o empoderamento feminino?
Nessa letra, o eu-lírico é uma heroína consideravelmente passiva - ele narra o quão ruim o "herói" da história é pra ela, descrevendo um relacionamento ruim  e consideravelmente abusivo e encerra a música dizendo que, mesmo com tudo isso, "o show deve continuar". Até então, não parece muito empoderador.
Nesse aspecto, o MV ajuda muito. No clipe vemos uma Sunmi sensual, empoderada, dançando com outras mulheres - inclusive de uma maneira "feia", meio esquisita e até engraçada. No momento em que ela briga com o suposto namorado, ele tenta se reconciliar e ela o empurra, indo na sequencia pra uma cena onde está bonita, bem vestida e se divertindo enquanto dança. Além disso, no final do clipe ela atira no outdoor com sua imagem "bonita" e o derruba, indo embora na sequência - deixando algo para trás.
Juntando a letra e o clipe, temos uma história de superação.
"Heroine" tem um tom de desabafo, mas também um tom de ironia - embora a imagem de "boa menina" deva ser mantida perante a sociedade, o tom irônico vai crescendo ao longo da música, pois ela começa dizendo que eles são como um imã, e termina dizendo que "vá, vá ser o herói fantástico que você é". Vale comentar que em dois momentos a personagem se diz embriagada - no primeiro verso da música, ao dizer que a cabeça dela está girando, e lá pro meio, quando pode ter dado a entender que o relacionamento é como uma droga pra ela. Em qualquer circunstância, são soa muito saudável, já que parece um relacionamento que tira sua lucidez e pode levá-la a fazer escolhas ruins pra si mesma.
Assim, embora a protagonista possa ser passiva, ela não é idiota: ela percebe o que está acontecendo à sua volta, desde o relacionamento nocivo no qual ela está, à pressão social de aceitar o que o parceiro faz e manter a sua imagem ideal - bela, recatada e do lar. Essa imagem é derrubada no clipe - embora esteticamente bonita (e dentro de um certo molde de beleza), Sunmi encarna uma personagem mais dona de si mesma, que explora um pouco mais sua feminilidade, sua sensualidade e se diverte com seu próprio corpo - seja sensualizando com outras mulheres (as dançarinas) ou fazendo uma dancinha engraçada.
Além da análise do clipe e da letra, é importante pensar que essa produção toda está fazendo sucesso na Coreia do Sul, um país muito machista e conservador, onde as mulheres - solistas ou em grupos - fazem menos sucesso e são constantemente censuradas por serem "muito sensuais". Vale dizer aqui que falo da sensualidade no sentido da mulher que tem poder sobre o próprio corpo e o explora de alguma forma, e não da mulher que é objetificada e tem como papel dar prazer ao homem (o que tem uma diferença gritante, por favor!). Nesse sentido, seria ótimo se jovens mulheres, adolescentes e meninas - grupo que comumente consome o KPop - aprendessem com Sunmi que nem todo herói é realmente esplêndido, e que elas podem se divertir e aproveitar a si mesmas sem se submeter a certos tipos de relacionamento ou se preocupar com certas pressões sociais. Isso, minhas caras e caros, é empoderador.

Bom... minha análise termina aqui - primeiro, porque eu subestimei minha tagarelisse e não imaginei que o post ia ficar tão longo -qq, segundo porque não acho que tenho mais pra acrescentar ao tema. Por fim, quero deixar claro que essa reflexão toda foi feita pensando numa mulher comum, meio generalizada, e está intimamente relacionada com a minha experiência pessoal sobre ser mulher, feminismo e tudo o mais. Não sei se posso generalizar essa reflexão pra outras mulheres - trans, lésbicas, negras, pobres, ricas - ou pra outros tipos de relacionamento - homoafetivos, relacionamentos abertos e outras possíveis nomenclaturas que eu não conheço. Então que fique claro: é o meu ponto de vista sobre uma música, e embora pra mim tudo esteja muito na cara, isso não quer dizer que ela foi composta ou produzida com esse propósito.
Isso dito, espero que a reflexão tenha valido de algo pra vocês, seja pra pensar ou pra dialogar mesmo. O que acham? Viajei na batatinha ou fez algum sentido pra vocês? Me contem se quiserem! ♥ Eu fico por aqui - beijinhos a todas e todos, e até a próxima!

Marcadores: , ,


Written by Shana | 7 de maio de 2018 | 2 Comentários | link to this post


«older newer»