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(12) - Para quem me causou mais sofrimento

Me dói no fundo do peito perceber que vocês nunca vão entender o quão importantes e o quão nocivos vocês são pra mim. Nesses vinte e sete anos de existência, eu aprendi a me colocar em segundo plano e a estar disponível pra vocês - e à todas as outras pessoas, o que eventualmente me levou a ser "a melhor amiga" de muita gente e a uma carreira como psicóloga. Vocês me ensinaram a amar, a respeitar, a não fazer com o outro o que eu não queria pra mim. Mas é um mistério como, em todos esses anos, vocês dois não se deram ao trabalho de aprender a retribuir esse favor.
Porque é isso. O meu amor, carinho, cuidado, respeito e atenção são favores. Eu os faço se quiser; eu os dou se quiser. E hoje, mais uma vez dentre tantas outras, me peguei pensando em porquê eu teimo em amar vocês.
É um cansaço constante, confesso - estar sempre disponível, ser sempre compreensiva, aceitar tudo o que me é jogado e ainda assim ter a constante sensação de que só serei valorizada quando eu for embora. "Take for granted"; o constante sentimento de não pertencer; a constante sensação de que qualquer pessoa pode me substituir, porque eu não tenho valor. Poderia ser uma ironia pensar que o lugar que deveria ser meu porto seguro e as pessoas que me ensinaram a ver a importância do outro são, justamente, o que mais me machuca.
Essa vontade constante de pedir desculpas e de assumir essas culpas é difícil de controlar. Sempre foi assim - eu erro, eu falho; eu sou dramática e descontrolada; eu sou louca, "como o seu pai", eles dizem. Mas no fim do dia eu só sou um problema quando eu exijo respeito, quando eu bato o pé e aponto as falhas de vocês. Quando eu me recuso a estar disposta aos vossos desejos, quando eu sou humana, individual, dona de mim mesma e exijo a retribuição que eu nunca cobrei.
Eu sei que sou um incômodo. E dói no fundo do peito não saber dizer se eu sou amada, ou se vocês já se habituaram a minha presença. Se o amor que às vezes eu acho que sinto é uma convenção social; é politicamente correto, é o que se espera, faz parte do vosso show. Dói não ter certeza se a minha falta vai ser sentida; se o meu silêncio incomoda porque preocupa, ou se porque ele enche o saco. Dói saber que eu não consigo confiar nem em vocês, nem em mais ninguém - que eu não sei dizer o que é uma fantasia por mim idealizada, pra fazer os dias menos sofridos, e o que é realidade.
Dói. Dói o tempo inteiro - dói existir, dói respirar, dói saber e não saber; dói o controle e o descontrole, dói estar acordada e dói sonhar. Dói por inteiro - do corpo à mente, do concreto ao abstrato. Dói a realidade e dói a fantasia, e, acima de tudo, dói por inteiro - dói não conseguir me reconhecer enquanto algo além da dor.
E dói, no fundo do peito, que a constante vontade de sumir e ir embora não é um desejo de morte - é de distância. É de poder enfim existir como outra pessoa, aquela que eu preciso esconder pra ser aceita. É o desejo de não ser educada, nem cortês, nem boa, nem amigável, nem compreensiva, nem madura, nem responsável. É o desejo de poder falar "não" sem medo; é o desejo de não se importar com os problemas alheios; é o desejo de dar conta das minhas necessidades sem peso na consciência.
Eu quero viver outra vida. Uma vida livre, uma vida segura, uma vida onde eu goste de acordar e saber que tenho todo um dia pela frente. Onde meus sonhos não me assombram, e os fantasmas só venham de visita uma vez ou outra, pra ver como vão as coisas. Eu quero viver sem me preocupar com vocês, sem me sentir de fora, sem me questionar sobre o lugar que eu ocupo. Eu quero não precisar me preocupar e pensar mil e uma vezes sobre cada desejo, sentimento e pensamento. Eu quero poder amar vocês sem precisar me perguntar se estou sendo estúpida ou não. Eu quero poder conversar sem pisar em ovos. Eu quero saber que posso contar com vocês mesmo que eu não precise. Eu quero poder viver sem me questionar o tempo inteiro. Eu quero viver sem sofrer o tempo inteiro.
Por fim, eu queria que vocês entendessem. Que devolvessem um décimo de todo o carinho, compreensão, respeito e empatia que me ensinaram a dar. Que vocês cuidem um do outro sem que eu precise lembrá-los. Que vocês não dependam mais de mim o tempo todo, e que olhem mais pra fora, além de vossos mundinhos mundanos. Existe todo um universo fora do interior de cada um de nós, e eu estou cansada de ficar sozinha nele. Por fim, eu queria poder ser eu mesma, sem pedir permissão.
E enquanto não for possível, bem. Eu me guardo no meu silêncio, como nos últimos vinte e sete anos da minha existência.

Com o peso de tudo o que não foi nem será dito,
B.

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Written by Shana | 16 de abril de 2020 | 4 Comentários | link to this post



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